Naquebrada

Restinga - Porto Alegre/RS.

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Rádio Restinga: Uma Terapia Radiofônica?
2007/10/07,19:10

Músicos! Pobres! Venham todos! Aqui todo mundo pode dizer o que pensa! Hei você que passa pela rua, venha aqui, coloque para fora todo o seu ódio ou prazer, tudo que você tem para dizer, pegue o microfone e fale o que você quiser!”... Assim começa a nossa guerra, o nosso combate ferrenho contra as grandes empresas de mídia e as injustiças sociais, somos todos heróis, seríamos portanto Dons Quixotes?

As portas foram abertas e todas as pessoas da comunidade foram chegando, partidos políticos, movimentos sociais, indivíduos independentes ou amarrados a algo - uma mistura que daria um caldo bom: a direita com a esquerda, o canhoto com o destro... tinha de tudo! E esse era o grande sonho, todos podiam falar de igual para igual, afinal de contas esse é o propósito de uma rádio comunitária, ainda mais aqui na Restinga, onde somos milhares de ilhados, bairro dormitório, onde todos chegam cansados em casa e vêem na novela das oito o sonho perfeito: a Senhora do Destino como o grande paradigma, não por ser mulher, mas por ter vencido a pobreza extrema obtendo uma vida luxuosa em um passe de mágicas.

Voltando a idéia da Rádio, houve pessoas que diziam serem capazes de lhe dar com a diversidade, colocando para si a tarefa de integrar as pessoas - como se isso fosse uma missão fácil... e a rádio se tornou um reflexo da Restinga. Problemas pessoais se tornaram problemas da rádio, velhos inimigos de movimento popular estavam ali, juntos em um mesmo espaço, como um saco de gatos. No final parecia que a missão da rádio era a reconciliação, não que não seja uma proposta interessante. Por isso, recebemos os nossos velhos “inimigos”, e de mãos dadas celebramos um verdadeiro tratado de paz.

No fundo essa era a vocação da nossa rádio, reuniões que pareciam dinâmicas de grupo, um verdadeiro grupo de auto-ajuda. Mas não parava por aqui, também existia um outro tratamento, talvez o principal da rádio a “Microfone-terapia”. Era um espaço interessante onde a auto-estima do doente era levantada em alguns programas, um espaço de auto-afirmação - seria a nossa rádio um grande hospital de caridade? Tomara que não.

Quando se vai para o microfone falar de problemas pessoais, se espera do ouvinte o tratamento, então comunicamos problemas e esperamos diagnósticos para as nossas “doenças”, assim funciona a “microfone-terapia”. Se o ouvinte ligar para a rádio ficamos felizes, conseguimos ser ouvidos por alguém, e se o ouvinte falar que o programa está muito bom, recebemos o remédio que queríamos.

Mais de cinco anos e os doentes continuam doentes, acho que o tratamento radiofônico não deu certo, então eles que procurem médicos! Desde de sempre, a função de uma rádio comunitária é articular os movimentos sociais, é instigar no ouvinte uma certa reflexão sobre a mídia, é bater de frente com as injustiças e com as grandes empresas de comunicação. As ações externas da rádio, como por exemplo, as rádios postes e as oficinas nas escolas são um exemplo de como democratizar o microfone e iniciar um diálogo de igual para igual com a comunidade, é preciso de agora em diante ver a rádio como um espaço de luta e não um espaço de auto-ajuda, de terapias.



Texto escrito em junho de 2004

Por Ação Periférica na Comunicação

comentarios

Comment Icon K2

Muito bom o texto, que a sociedade pare e escute esses milhôes de brasileiros que esperam uma mudança em suas vidas.
Eles têm que ouvir a rádio e usar o microfone só assim serão ouvidos pela elite que está pouco se lixando para nós.
Mas, temos a força, o microfone e pessoas dispostas a quebrar tudo pelo povo.
Abraço

Posted by: Dinho k2 at 2007/11/17, 00:40
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